A Morte e o Desconhecido
![]() |
“Você é pó e ao pó voltará.”
(Gênesis 3:19)
O Deserto dos Vivos
A morte é o deserto que todos somos forçados a atravessar, independentemente de nossas escolhas ou crenças. Não há atalhos nem mapas que garantam uma rota menos árida; há apenas a certeza de que, em algum ponto, a areia engole tudo. Reis e mendigos, eruditos e ignorantes — todos retornam ao mesmo ponto de partida: o pó.
Vivemos fingindo que somos imortais. Erguemos monumentos, acumulamos riquezas, criamos legados digitais… tudo para mascarar a verdade: um dia seremos esquecidos.
Num tempo em que a morte se tornou tabu, preferimos cirurgias que prometem juventude eterna, mantras de positividade que negam a dor, e lutos anestesiados por distrações. Perdemos o essencial: a sabedoria que a finitude oferece.
O Espelho Quebrado
Há um espelho diante de cada ser humano — e nele está gravada a certeza do fim. Mas preferimos quebrá-lo em pedaços pequenos, mais fáceis de ignorar. Kierkegaard chamava isso de “doença mortal”: o medo paralisante de encarar a própria fragilidade.
Deus, ao se apresentar a Moisés, diz: “Eu sou o que sou”. Nós, por outro lado, somos os que “estão sendo” — sempre flutuando entre o que fomos e o que ainda não somos. Buscamos transcender o pó com obras, famílias e legados, mas o salmista nos lembra:
“O homem é como a erva… Passa o vento sobre ela, e já não existe.” — Salmo 103:15-16
Ainda assim, continuamos tentando desafiar o esquecimento. Ontem com pirâmides. Hoje com redes sociais, criogenia, inteligência artificial. Mas no fim, tudo isso é pó disfarçado de eternidade.
A Sabedoria das Catacumbas
Os primeiros cristãos, escondidos nas catacumbas de Roma, viviam cercados pela morte. Mas não se entregavam ao medo. Suas paredes mostravam peixes, âncoras, cruzes — símbolos de esperança. Para eles, a morte era um início, não um fim.
Hoje, tentamos derrotar a morte com terapias rápidas, entretenimento constante e rituais frios. Mas talvez, na dor, esteja o vislumbre de quem realmente somos. Dietrich Bonhoeffer, antes de morrer nas mãos dos nazistas, escreveu:
“A morte é o último portal para a liberdade eterna.”
Porque é na fraqueza do pó que Deus planta a promessa da redenção.
O Medo que Paralisa
Ló e sua esposa fugiam de Sodoma. Mas ela olhou para trás — e virou estátua de sal. Paralisada pelo medo do que deixava. Assim somos nós: petrificados pelo medo da perda, da morte, do fim do controle. Vivemos como se a morte fosse um fracasso.
Mas a morte não é o fracasso da vida. Ela é seu coroamento.
Em A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, um homem descobre no leito de morte que viveu uma existência vazia. Sua dor não é o fim… é a constatação tardia de que nunca viveu de verdade.
Do Pó à Semente
No deserto, há plantas que parecem mortas — enroladas, secas. Mas basta uma gota de água para que floresçam. Assim é a humanidade: aparentemente condenada ao pó, mas com a promessa da ressurreição.
“Fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.” — Santo Agostinho
A morte não é inimiga. É mestre. Ela nos lembra que somos finitos, mas não insignificantes; frágeis, mas capazes de conter o infinito.
A Ilusão da Imortalidade
A tecnologia nos promete imortalidade. Mas que tipo de vida é essa que se arrasta sem alma? Conquistamos longevidade, mas ainda não respondemos à pergunta mais básica: a vida que estendemos vale mesmo a pena ser vivida?
Em Gênesis 11, os homens tentaram construir Babel para alcançar os céus sem Deus. Falharam. Hoje, fazemos o mesmo — com status, carreiras e likes. Mas tudo isso tem um custo: o presente é sacrificado por um futuro que nunca chega.
Como diz Eclesiastes:
“Tudo é vaidade e correr atrás do vento.” (1:14)
Os antigos encaravam a morte de frente: memento mori — “lembre-se de que você vai morrer”. Hoje, o luto é escondido, a cerimônia é breve, o corpo é apressado. Mas a morte ignorada volta nos silêncios, nos sonhos interrompidos e nas crises que nos pegam desprevenidos.
O Limiar da Eternidade
E se a morte for um portal? Em O Peregrino, o protagonista atravessa o rio da morte rumo à Cidade Celestial. Jesus disse:
“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” — João 11:25-26
Mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, Jesus chorou. Isso nos mostra que o luto não é fraqueza — é parte do processo. Chorar a morte nos aproxima de Deus, pois "o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado" (Salmo 34:18).
Do Pó ao Propósito
Conta-se que um rei, ao construir seu palácio, deixou um cômodo propositalmente inacabado. "Para nunca esquecer que minha vida é imperfeita e temporária", dizia ele.
Somos pó. Mas pó moldado pelas mãos do Criador. Nossa finitude não nos diminui; ela nos direciona. Assim como a semente precisa morrer para florescer, nossa vida precisa ser entregue a Deus para se transformar.
Jó, em sua dor absoluta, declarou: “Eu sei que o meu Redentor vive.”
Aceitar a morte não é desistir da vida. É começar a viver de verdade.

