Você não precisa ser útil para valer alguma coisa.
A pergunta é simples, mas ela morde. Silenciosamente. Você pode estar lavando a louça, respondendo e-mails ou rolando o feed quando ela ataca: “Será que eu tô fazendo alguma diferença?”
E se a resposta for “não sei”, pronto — o buraco aparece.
Vivemos numa época em que ter um propósito virou quase obrigação moral. Como se você fosse um projeto de startup e precisasse de um pitch existencial convincente pra justificar sua presença no planeta. Tá cansado? Recalcule seu ikigai. Tá perdido? Reinvente sua marca pessoal. Tá deprimido? Talvez seja só burnout. Respira fundo e vai fazer yoga.
A vida não é um pitch de LinkedIn
Segundo Viktor Frankl — psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazistas — a busca por sentido é o que sustenta a alma humana em meio ao caos. No livro Em Busca de Sentido, ele diz que o ser humano pode suportar qualquer “como” se tiver um “porquê”. Mas a cultura atual parece mais preocupada com o “como parecer interessante” do que com o “porquê existir”.
Byung-Chul Han, no ensaio Sociedade do Cansaço, denuncia o esgotamento provocado pela obrigação de sermos tudo: produtivos, criativos, resilientes, autênticos, apaixonados pelo que fazemos e ainda gratos. A tirania do “faça o que ama” virou um veneno disfarçado de conselho.
A performance do propósito
Redes sociais amplificam essa distorção. Você vê alguém sorrindo com a legenda “vivi meu propósito hoje” e se pergunta se perdeu alguma aula da vida. Vira uma vitrine de pessoas que parecem ter descoberto um “sentido” esteticamente aceitável. Felicidade virou curadoria. Propósito virou produto.
Você, que só conseguiu tirar o lixo e pagar uma conta no boleto, se sente um fracasso existencial. Só que o problema não é você. É o filtro.
Ninguém posta o tédio. Ninguém mostra o vazio de domingo à noite. Ninguém grava os momentos em que nem sabe por que está chorando. E mesmo assim, eles existem — e fazem parte da jornada de todo mundo.
Propósito não é espetáculo
Em culturas orientais, como no Japão, o conceito de ikigai se aproxima da ideia de viver uma vida que vale a pena ser vivida — mesmo que longe dos holofotes. Não é sobre sucesso, mas sobre presença. Na Índia, o dharma remete ao caminho certo de viver — não como destino pronto, mas como alinhamento com aquilo que é justo, necessário e verdadeiro.
E no cristianismo?
No cristianismo, o propósito não começa em mim. Começa em Deus. A pergunta não é só “o que eu vim fazer aqui?”, mas “quem me criou — e por quê?”
O propósito cristão não é uma construção ego-referenciada de sucesso pessoal, mas um convite à obediência amorosa ao Criador. É viver para algo (e Alguém) maior do que a própria história. É reconhecer que não estamos no centro da narrativa — e que isso é libertador.
“Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas.” — Romanos 11:36
Nesse sentido, o propósito cristão não é fazer algo “grandioso”, mas viver de forma fiel — na vida comum, nas escolhas diárias, nos bastidores. É amar a Deus e ao próximo. É servir com aquilo que se tem. É carregar a cruz e seguir. Mesmo quando ninguém vê. Mesmo quando não dá engajamento.
Tá. Mas o que eu faço com tudo isso?
Se você chegou até aqui, é porque essa pergunta também te atravessa. Então aqui vão três passos simples, reais, sem filtros ou promessas mágicas:
Experimente um dia sem se medir por produtividade. Só um. Não tente render. Só exista. Sinta como isso pesa — e o que isso revela.
Anote três coisas que te fizeram sentir vivo nos últimos dias. Pode ser rir de uma bobagem, cuidar de uma planta, ouvir uma música e sentir algo real. Isso é pista.
Ore. Converse com Deus. Não com fórmulas prontas, mas com sinceridade. Pergunte: “Senhor, pra que estou aqui?” — e tenha coragem de esperar a resposta. Ela pode não vir em palavras, mas virá em direção.
No fim das contas…
Seu valor não está na performance. Está na permanência. Na sua capacidade de continuar existindo mesmo quando não há aplauso. Mesmo quando nem você acredita que tem valor.
E talvez, só talvez, seja nesse ponto que tudo realmente começa.
Qual foi sua última alegria “não viralizável”?